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quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

O Buraco

Aquela cidade não era habitada por pessoas, mas por buracos.
Buracos viventes.
Havia buracos ostentosos, de mármore e buracos humildes, de tijolos.
Um dia chegou uma nova moda: o importante é o interior, não o exterior!
E foi assim que os buracos começaram a se encher de coisas...
De ouro e jóias. Outros, mais práticos, de eletrodomésticos.
Alguns, de arte ou instrumentos musicais.
Os intelectuais encheram-se de livros.
A maioria dos buracos encheu-se a tal ponto que não cabia mais nada e para solucionar a situação, começaram a alargar-se.
Mas um pequeno buraco percebeu que se todos fizessem o mesmo, em pouco tempo a cidade se transformaria em um único buraco...
E todo mundo perderia a sua identidade.
Teve então uma idéia: pensou que uma outra forma de aumentar a sua capacidade seria aprofundar-se em lugar de alargar-se.
Mas percebeu que isso ser-lhe-ia impossível por causa de tantas coisas que ele já continha!
Decidiu, então, esvaziar seu conteúdo.
Primeiro teve medo do vazio, mas quando percebeu que não existia outra possibilidade, assim o fez.
Um dia, de tão profundo, achou água. Nunca antes outro buraco tinha achado água!
Nesse lugar quase nem chovia e a água extra permitiu que as paredes do buraco se cobrissem de verde, e assim, chamaram-no O Manancial.
Os outros buracos queriam a água, mas quando perceberam que teriam que se esvaziar, preferiram continuar a alargar e encher-se de coisas inúteis.
Outro buraco, no outro lado da cidade,conseguiu esvaziar e chegar à água, criando assim um oásis.
Os dois buracos perceberam que a água que tinham achado era a mesma. Tinham, então, um novo ponto de contato...
A comunicação profunda que só conseguem entre si aqueles que tem a coragem de esvaziar-se de seus conteúdos e buscar, no fundo do seu ser, aquilo que têm para dar e compartilhar.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Meus Amigos

Escolho meus amigos não pela pele ou outro aspécto qualquer, mas pela pupila. Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante. A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos. Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo. Deles não quero resposta, quero meu avesso. Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim. Para isso, só sendo louco. Quero-os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.
Escolho meus amigos pela cara lavada e pela alma exposta. Não quero só o ombro ou o colo, quero também sua maior alegria. Amigo que não ri junto não sabe sofrer junto. Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade. Não quero risos previsíveis nem choros piedosos. Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça. Não quero amigos adultos nem chatos. Quero-os metade infância e outra metade velhice. Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto e velhos, para que nunca tenham pressa. Tenho amigos para saber quem eu sou. Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que 'normalidade' é uma ilusão imbecil e estéril.


Autor Desconhecido.
Roberto de Albuquerque Cezar

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Viver Como As Flores

- Mestre, como faço para não me aborrecer? Algumas pessoas falam demais, outras são ignorantes. Algumas são indiferentes. Sinto ódio das que são mentirosas. Sofro com as que caluniam.
- Pois viva como as flores - advertiu o mestre.
- Como é viver como as flores? - perguntou o discípulo.
- Repare nestas flores - continuou o mestre, apontando lírios que cresciam no jardim - Elas nascem no esterco, entretanto, são puras e perfumadas.
Extraem do adubo malcheiroso tudo que lhes é útil e saudável, mas não permitem que o azedume da terra manche o frescor de suas pétalas. É justo angustiar-se com as próprias culpas, mas não é sábio permitir que os vícios dos outros o importunem. Os defeitos deles são deles, e não seus. Se não são seus, não há razão para aborrecimento.
Exercite, pois, a virtude de rejeitar todo mal que vem de fora... Isso é viver como as flores...


Autoria Desconhecida
Roberto de Albuquerque Cezar